Pode um Deus santo usar o engano? A história do profeta Micaías e do rei Acabe, condenado à morte (1 Reis 22), levanta exatamente essa questão. Uma leitura atenta do texto hebraico, no entanto, revela um quadro muito mais matizado do que as traduções para o português sugerem — não o de um engano divino, mas o de uma justiça divina.
O Contexto
Após três anos de frágil paz entre Aram (atual Síria) e Israel, o perverso rei Acabe de Israel recebeu a visita de Estado de Josafá, o justo rei de Judá (1 Reis 22:1-2). Cerca de 77 a 78 anos haviam se passado desde a fragmentação da monarquia unida após a morte de Salomão (c. 930 a.C.).Aproveitando-se do momento político favorável, Acabe lembrou a seus servos que Ramote-Gileade, uma cidade legítima de Israel, permanecia sob controle arameu, a qual Ben-Hadade havia prometido devolver (1 Reis 20:34), embora aparentemente continuasse em mãos arameias. Ele então propôs uma campanha militar conjunta para reconquistá-la (1 Reis 22:3-4). Josafá prontamente prometeu aliança — “Eu sou como vocês, o meu povo como o seu povo, os meus cavalos como os seus cavalos” — mas sabiamente insistiu que primeiro consultassem o Senhor (1 Reis 22:4-5).
Os Falsos Profetas e Micaías
Enquanto os dois reis permaneciam sentados em seus tronos em esplendor real no portão de Samaria, os falsos profetas desempenhavam suas funções “ministeriais” diante deles.Zedequias, filho de Quenaaná, o principal profeta, forjou chifres de ferro e, exibindo-os, proclamou que com eles Acabe feriria os arameus até que fossem completamente destruídos (1 Reis 22:10-11). Todos os profetas ecoavam a mesma mensagem triunfante, incitando o rei a uma vitória certa em Ramote-Gileade (1 Reis 22:12). Assim, o palco estava montado para um confronto dramático entre a bajulação e a verdade.
Insatisfeito com a uniformidade positiva das profecias, Josafá perguntou se havia algum profeta de YHWH por perto (1 Reis 22:7). A pergunta colocou Acabe em uma situação difícil. Seu reinado, marcado pela adoração a Baal que ele promoveu com Jezabel, havia sido uma guerra implacável contra os profetas de YHWH. Elias o havia confrontado repetidas vezes. Agora, com Elias provavelmente já falecido, Acabe, a contragosto, identificou o único profeta javista que ainda podia convocar: Micaías, filho de Imlá. “Mas eu o detesto”, confessou Acabe, “pois ele nunca profetiza o bem a meu respeito, mas somente o mal” (1 Reis 22:8). Por insistência de Josafá, ele foi chamado.O mensageiro enviado para buscar Micaías o instou a aprovar a profecia dos quatrocentos profetas da corte perante os dois reis (1 Reis 22:13). Com sarcasmo mordaz, ele cita a frase usada pelos falsos profetas palavra por palavra e a intensifica teatralmente, acrescentando “e prospere”: “’Sobe, prospera, e o Senhor a entregará nas mãos do rei!’” (1 Reis 22:6, 15). Percebendo a zombaria óbvia, Acabe exigiu, furioso, ouvir a verdade sob juramento (1 Reis 22:16).
Micaías então transmitiu uma mensagem arrepiante do SENHOR: ele viu todo o Israel disperso pelas montanhas como ovelhas sem pastor (1 Reis 22:17). A profecia também predisse a morte do rei Acabe e a derrota de todo o seu exército. Acabe se voltou amargamente para Josafá, dizendo: “Eu não te disse que ele não profetizaria coisas boas a meu respeito, mas somente desgraça?” (1Reis 22: 18). Mas esse não foi o fim do confronto. O verdadeiro profeta do SENHOR continuou.
A visão de Micaías sobre o Conselho Celestial
19 …Vi o Senhor (יְהוָה) sentado sobre o seu trono, e todo o exército do céu (וְכָל-צְבָא הַשָּׁמַיִם עֹמֵד עָלָיו) estava junto a ele, à sua mão direita e à sua esquerda.
Algumas traduções especificam que o SENHOR estava rodeado por anjos (NASB), mas o texto hebraico é mais abrangente, descrevendo “todo o exército do céu” (כָל-צְבָא הַשָּׁמַיִם) ao seu redor. A declaração de Micaías é provavelmente hiperbólica, pois a imensidão desse exército celestial desafia a contenção visual em uma única cena. Contudo, sua ênfase deliberada na completude do documento destaca o caráter público e de autoridade do conselho divino.
20 E disse o Senhor: Quem induzirá Acabe (מִי יְפַתֶּה אֶת-אַחְאָב) a que suba e caia em Ramote-Gileade? E um dizia desta maneira e outro doutra.
O verbo פָּתָה (patah) é central na cena, repetido tanto por YHVH quanto posteriormente pelo espírito (vv. 20–22). Este verbo não significa “mentir”, mas carrega um significado mais matizado: “seduzir, atrair e seduzir”.
יֵּצֵא הָרוּחַ, וַיַּעֲמֹד לִפְנֵי יְהוָה, וַיֹּאמֶר, אֲנִי אֲפַתֶּנּוּ
21 Então saiu um espírito e se apresentou diante do Senhor, e disse: Eu o induzirei.
Dado o contexto da história, o espírito não inventa falsidades; ele amplifica a bajulação que Acabe já escolheu acreditar e exigiu ouvir. Este ‘espírito’ (hā-rûaḥ), provavelmente a mesma figura adversária que opera sob a autoridade de Deus em Jó e Zacarias, então propõe seu método. Igualmente impressionante é o artigo definido em וַיֵּצֵא הָרוּחַ—“o (הָ) espírito se aproximou” (v. 21). Apesar da maioria das traduções o interpretarem como “um espírito”, o hebraico indica uma entidade conhecida, possivelmente a mesma figura adversária que aparece como o Satã (הַשָּׂטָן), operando estritamente sob a autoridade de YHWH (Jó 1:6, 7, 8, 9, 12; Jó 2:1, 2, 3, 4, 6 e 7, bem como Zacarias 3:1). Embora muitos intérpretes (antigos e modernos) identifiquem essa figura com o Satã (o Acusador) conhecido de Jó e Zacarias, o próprio texto deixa a identidade precisa do espírito um tanto em aberto.
וַיֹּאמֶר יְהוָה אֵלָיו, בַּמָּה וַיֹּאמֶר, אֵצֵא וְהָיִיתִי רוּחַ שֶׁקֶר, בְּפִי, כָּל-נְבִיאָיו; וַיֹּאמֶר, תְּפַתֶּה וְגַם-תּוּכָל-צֵא, וַעֲשֵׂה-כֵן
22 E o Senhor lhe disse: Com quê? Eu serei um espírito de mentira (רוּחַ שֶׁקֶר) na boca de todos os seus profetas (בְּפִי, כָּל-נְבִיאָיו). E ele disse: ‘Você seduzirá (תְּפַתֶּה), e também será capaz de/ter sucesso/prevalecer (וְגַם-תּוּכָל). Vai e faze isso.’ (צֵא, וַעֲשֵׂה-כֵן)
A resposta de YHVH no versículo 22 é decisiva: “Você seduzirá e também terá sucesso. Vai e faze isso.” O enfático “você também prevalecerá” não é mera permissão, mas um decreto judicial que garante que a sentença será cumprida. É seguido por “sai e faze isso” (צֵא, וַעֲשֵׂה-כֵן), que é o momento-chave da história. A frase não é uma permissão passiva; é uma ordem ativa para o cumprimento de uma sentença.
Julgamento de Deus
Em outro contexto, mas falando basicamente da mesma coisa, o apóstolo Paulo resumiu essa dinâmica da seguinte maneira:
11 Por isso, Deus enviará a operação do erro, para que creiam a mentira; 12 para que sejam julgados todos os que nã ocreram a verdade, antes tiveram prazer na iniquidade. (2 Tessalonicenses 2:11-12; veja também Romanos 1:18-31)
A expressão de Paulo, ἐνέργειαν πλάνης (“influência enganosa”), Deus envia (2 Tessalonicenses 2:11), espelha exatamente a expressão de 1 Reis 22 רוּחַ שֶׁקֶר, Deus dá (נָתַן). Ambas descrevem o julgamento divino: entregar soberanamente os rebeldes à mentira sedutora que eles já desejam.
O profeta do Senhor continuou:
23 Agora pois, eis que o Senhor pôs o espírito de mentira (נָתַן יְהוָה רוּחַ שֶׁקֶר) na boca de todos estes teus profetas, e o Senhor falou mal/desastre contra ti (רָעָה).
Esta dinâmica não é exclusiva de Acabe. As Escrituras revelam um padrão preocupante: a resposta judicial de Deus à rebelião entrincheirada é ratificar o caminho escolhido pelo pecador. Assim como Ele endureceu o coração de Faraó (Êxodo 7:3; 9:12) — transformando a obstinação do tirano no palco das pragas e da libertação de Israel — também Ele aqui comissiona um espírito enganador para confirmar Acabe na bajulação que ele exigia. Em ambos os casos, a soberania divina reforça ativamente o curso escolhido pelo rebelde: Faraó não deixou o povo de Deus partir, e Acabe não deu ouvidos à verdadeira advertência.
Ezequiel 14:9 repete de forma impressionante o mesmo verbo: “Se o profeta for enganado (פָּתָה) e falar alguma cousa, eu, o Senhor, persuadi este profeta”. Aqui, Deus assume abertamente a responsabilidade pelo engano dos falsos profetas que já se venderam à idolatria, confirmando-os no caminho escolhido, exatamente como faz com os 400 profetas da corte de Acabe.
Note que em Ezequiel 14:9 o verbo פָּתָה é usado duas vezes em um versículo, com Deus como sujeito da segunda vez: “Eu, o SENHOR, enganei [פִּתֵּיתִי] aquele profeta” — exatamente o mesmo padrão judicial visto com os 400 de Acabe. Esse paralelo prova que o padrão é judicial, e não uma artimanha arbitrária.
O texto hebraico, portanto, nunca retrata Deus como mentiroso. Em vez disso, revela um Deus santo que, em perfeita justiça, retira a restrição e ratifica o autoengano dos rebeldes, usando seus desejos como o próprio meio de sua destruição. Acabe não é enganado contra a sua vontade; ele recebe, da mesma maneira, aquilo em que insistiu em acreditar.
Conclusão
Um Deus santo jamais mente. Em Sua justiça, por vezes Ele retira a contenção e confirma judicialmente os rebeldes obstinados no autoengano que já escolheram, entregando-os às mentiras lisonjeiras que tanto desejam, até que essas mesmas mentiras se tornem o laço que os arrasta para a destruição.
Foi isso que aconteceu com Acabe. Deus não proferiu mentiras; simplesmente removeu todas as barreiras e deu ao rei os profetas que seu coração desejava. A boca que desprezou a verdade de Micaías foi preenchida com o engano que amava — até a destruição de Acabe.
O Deus que endurece os obstinados, cura os quebrantados.Os orgulhosos Ele abandona às suas ilusões; os humildes Ele guarda com graça onipotente. Seu medo, sua fome de verdade, seu anseio por honrá-Lo — essas são as impressões digitais do Espírito Santo, provando que a porta ainda está escancarada.
O Juiz de toda a terra tornou-se o teu Salvador. A voz que pronunciou a ruína sobre os reis ímpios agora lhe diz: “Vem”. Nenhum coração verdadeiramente arrependido jamais será rejeitado. Corra para Ele — os braços que governam os céus estão abertos, e o sangue que satisfaz a santidade de Deus te cobre para sempre.
Aleluia!
